sexta-feira, 18 de abril de 2014

AMOR OU INCESTO?


Precisei, esses dias, acompanhar uma pessoa à delegacia de polícia. Fomos à DP que fica na praça São Francisco, na Cidade Nova. A pessoa, minha conhecida, havia passado por uma situação constrangedora e resolveu não aceitar os fatos simplesmente.
Estranhamos, a princípio, a calmaria do local. Vimos pelo vidro que separa a sala do escrivão da recepção que duas mulheres estavam sendo atendidas. Na sala de espera, aguardava  um senhor já de seus quarenta e poucos anos, a perna esquerda ralada mostrava que havia sofrido acidente de moto; logo em seguida, chegou outro rapaz, para registrar extravio  de documentos.
Tranquilo demais comentávamos. Teria sido a intervenção do santo padroeiro da praça? Se foi, durou pouco. Logo o santo resolveu cuidar dos pedidos de fiéis, que andam tão escassos nesses tempos modernos.  Chegou então uma ronda policial com um bando de jovens acompanhados de um homem com olhar de lagarto desconfiado e duas senhoras feias e mal-cuidadas. O cara de lagarto era pai de uma jovem alta, porte robusto e igualmente feia, com o mesmo olhar de lagarto do pai, mal encoberta por uma minissaia e uma miniblusa. Na companhia dela estavam mais dois rapazes, um era seu namorado, e outras duas moças. Era um agrupamento grosseiro de ralé suburbana. Ocuparam um canto na sala de espera onde havia dois bancos sem encostos. O sargento PM que os trouxe, caminhava, marcialmente,   feito um sapo inchado, abriu uma porta, abriu outra, e voltou ao bando. "Tira essa porcaria da cabeça!" - ordenou a um dos jovens - "se eu pegar essa porcaria na cabeça eu tomo". O rapaz guardou o boné entre as pernas.
Aos poucos, pelo zum zum zum da conversa entre eles, o caso foi se aclareando para nós que não disfarçávamos a curiosidade. Todos os jovens se encontravam numa casa na Liberdade. Bebiam e namoravam. Só um deles era maior de idade, o que namorava a filha do cara de lagarto. Essa moça foi o pivô de toda a situação, quer dizer, ela não, os ciúmes do pai, acusado por ela de tentar "estrupar" por isso ela havia fugido de casa e ido morar com o namorado, que já havia sido pego pela polícia em outras situações.  Não suportando ter que "perder" a filha para outro, o pai resolveu ir atrás da menina, no caminho ligou para a polícia e fez a denuncia que no determinado endereço estava acontecendo consumo de drogas e prostituição de menor. Ao chegar no local  "armou o barraco", agrediu e foi agredido, a polícia chegou e levou todo mundo para DP.
De longe, feito cão caçador, a imprensa sentiu o cheiro da confusão, rapidamente um repórter free-lance e uma equipe de tv local estavam lá fazendo suas matérias que servirão de aperitivo, durante a hora do almoço, em milhares de lares da cidade que veem essas situação como um espetáculo.
Talvez a atração que sentimos por esse lado feio de nossa sociedade se justifique pelo fato de que no início do século XX, as Vanguardas Europeias tenham abandonado o belo, abrindo um grande leque de sentimentos estéticos. O objeto feio aparece como fonte de inspiração de muitas obras, a feiura pode ser expressiva, trágica, grotesca, perturbadora; porém importante: sua observação pode causar grande prazer.
É assim que temos encarado esse quadro feio de nossa sociedade. "Nois só que morar junto", disse o rapaz. Na verdade, torcemos pelos dois, queremos que elas vão morar juntos. Nenhum de nós queremos vê-los casados com um de nossos filhos ou filhas. Não queremos nos misturar. Esse casal improvável ficará junto, queiramos ou não, queira o pai de cara de lagarto ou não. Ficarão juntos até vir os primeiros enjoos de uma gravidez, quando ele irá procurar outra pra curtir, ou ele for preso e ela voltar para casa do pai e aceitar "seu amor" paterno.  

Reações:

5 comentários:

  1. Belíssimo texto Sr. hiroshi, transformou algo que passaria despercebido num texto com característica do realismo-naturalismo, estilo Aluisio Azevedo ( O cortiço), além de poético.Minha admiração.

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    1. Nossa! Aloísio de Azevedo, quanto honra! Só uma correçãozinha, meu caríssimo Robson, Sr. Aurismar, o Hiroshi é um grande blogueiro, mas o blog dele é o Hiroshi Bogea Online.

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    2. mas esse texto é recheado de preconceitos

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  2. Nobres palavras caro amigo, digno de um conto realista. com palavras poéticas faz-nos refletir sobre como o nosso mundo está transformado em uma Sodoma e Gomorra moderna.

    P.S.: Desculpe-me pela gafe anterior, nobre amigo.

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