quarta-feira, 30 de abril de 2014

AMOR COMPARTILHADO

ORLA DO TOCANTINS DURANTE A ENCHENTE
FONTE IMAGEM:www.diariodecarajas.com.br
Um dia desses levamos uma turma de alunos lá no pontal, onde tudo começou para nossa cidade relicária. Havia várias intenções pedagógicas por trás dessa nossa despretensiosa visita, mas nenhuma delas incluía conhecer o formidável seu Francisco, bela coincidência no nome, pois estávamos no bairro Francisco Coelho, ali na orla, observando a enchente dos rios Itacaiúnas e Tocantins. 
"Durante seis meses no ano ela me pertence,   os outros pertence a ele"
Ouvi essa frase assim descontextualizada, pois ele estava cercado por alunos que o indagavam sobre o bairro. Pensei em me juntar ao grupo para saber do que de fato se tratava. Preferi, no entanto, me encostar no parapeito e deixar os pensamentos serem levados pelas águas. Fiquei imaginando quem seria essa que durante seis meses pertencia a um homem e durante outros seis meses pertenceria a outro. Seria possível isso na nossa sociedade machista, que aceita com naturalidade a traição masculina, todavia recrimina com duas medidas quando o ato parte de uma mulher? Se bem que nesse caso não seria traição, e sim, acordo, pelo menos para seu Francisco, pois o caso era sabido dele. 
Não pude deixar de relacionar o caso com o triângulo amoroso entre Camilo, Rita e Vilela e o final trágico que teve Rita ao trair o marido Vilela com o melhor amigo deste, Camilo, que teve igualmente um fim trágico. Ninguém condena Vilela por ter "lavado a honra", como diziam antigamente. Ninguém aponta o dedo para Camilo para condená-lo, pelas tardes folgadas que passou se deliciando no corpo da mulher do amigo. Pelo contrário, quando ele recebe a intimação, ou convite de Vilela, "Venha já já a nossa casa preciso falar-te sem demora", como deuses atemporais queremos avisá-lo do perigo que o espera. Não o fazemos e ele vai ao encontro da morte. 

"Durante seis meses no ano ela me pertence,   os outros pertence a ele"

Essa frase ficava repetindo em minha mente. 

Entre a literatura e o mundo real, pouca coisa muda. Lembrei-me de uma cena de quando criança cheguei a presenciar. O marido havia passado um ano no garimpo, Serra Pelada, possivelmente, não me lembro, quando chegou de volta em casa, cheio do dinheiro, bamburrado, achou a mulher em dias de colocar no mundo o fruto de uma traição, do ponto de vista dele; ou de um amor louco, fuga das horas nas quais  se sentia sozinha, do ponto de vista dela. A peixeira, que trazia sempre ao lado, resolveu a situação ali mesmo, no meio da rua. Ela ainda correu quando reconheceu o marido que se aproximava, só deu tempo de chegar à porta da casa, caiu tentando segurar a criança que saía de ventre materno sem receber a luz que a mãe tanto ansiara em lhe dar- era uma menina. O marido limpou a faca no vestido da mulher, guardou-a na cintura, passou no botequim da esquina, pediu uma dose de pinga, tomou e nunca mais foi visto. Os populares e vizinhos se compadeceram da criança, mais um anjinho inocente no céu, e condenaram a mulher adúltera. O pai nem foi ao velório, nem mandou ir atrás do assassino, "fez o que qualquer homem faria", talvez tenha pensado assim. 
Isso foi lá por meados da década de 1980, hoje tudo se modernizou. O homem se modernizou. Ninguém "lava" mais a honra com o sangue dos traidores. A mulher está protegida pela Lei Maria da Penha. Uma coisa, todavia, continua da mesma forma: homem nenhum aceita dividir sua mulher com outro. Pelo menos eu, no meu machismo arrogante, não aceito. 
É por isso que no meu pensar, seu Francisco parecia-me tão excepcional: "Durante seis meses no ano ela me pertence,   os outros pertence a ele". Repeti a frase em voz alta. Um aluno que estava ao meu lado sorriu. Foi ai que veio a decepção. Não era de uma mulher que ele falava, mas de uma ilha, que durante os seis meses de estiagem lhe pertencia, e nos seis meses de cheia pertencia ao rio. Ai não tem peixeira que resolva. 






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