domingo, 22 de setembro de 2013

PERSONAGENS QUE SÃO A CARA DO BRASIL

 

SUSPIROS DA MORENINHA

POR NELSON SCHAPOCHINIK

Em 1844, a Topografia Francesa do Rio de Janeiro deu à luz um pequeno livrinho de Joaquim Manuel de Macedo, intitulado A Moreninha. De sucesso rápido, veio a ser o primeiro best seller brasileiro. Mais tarde, foi adaptado para o teatro, cinema, TV e quadrinhos. Com a obra nasceu também um mito sentimental, que tem como emblema a personagem Carolina, jovem de quinze anos morena e sapeca, padroeira de namoros que fez sonhar diversas gerações de leitores e leitoras. A narrativa contribuiu para formular aquele ideal de beleza feminina tropicalizada que desbancou as loiras e pálidas europeias.
A trama que envolve a paixão e o casamento de Augusto, estudante de medicina, e a jovem Carolina é vezada num gênero ficcional que se tornaria bastante popular, entre outras razões pelo emprego da descrição de ambientes, trajes e festas. Ao longo das páginas deste romance de costumes, pode-se acompanhar os debates sobre os diferentes procedimentos médicos inspirados na tradição das sangrias e dos humores, da alopatia e da homeopatia, no emprego das joias e penteados como elementos de distinção social, no sarau como teatralização de uma sociedade de etiquetas e convenções formalizadas em gestos e contradanças, no protocolo das formalizações feminina (brincar de boneca, trabalhos manuais, manejar o código das flores e arte da conversação).
Além desses elementos que ajudam a fixar os contornos culturais da "boa sociedade fluminense", os personagens empregam uma linguagem coloquial, incluindo ai expressões corriqueiras e gírias, como por exemplo: "dar o cavaco", "é um saco", "é um pau vestido", "tem a testa maior que a rampa do Largo do Paço".
A jovem Carolina reúne uma série de qualidades que podem explicar a boa acolhida da personagem: é "travessa como um beija-flor, inocente como uma boneca, faceira como um pavão, e curiosa como ...uma mulher". Mas é por meio de um jogo de contrastes que Macedo enfatiza as virtudes da Moreninha. Diferentemente das primas fúteis e fingidas, ela se destaca pela perspicácia, bondade, solidariedade e inteligência, condutas exigidas para ser uma boa esposa e mãe. A concretização do enlace dos dois personagens indica a vitória dos valores afetivos sobre os interesses econômicos familiares. A cena em que a Moreninha entrega o camafeu para Augusto, revelando ser a jovem a quem ele havia prometido se casar, simboliza a fidelidade a um amor de infância, a consumação do ideal de honra e amor preconizado pelo romantismo.

(Fonte: Revista Entre Livros - Edição Especial de Fim de Ano, Ano 2 Nº 20 - Dez - 2006)   

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