quarta-feira, 21 de agosto de 2013

50 PERSONAGENS QUE SÃO A CARA DO BRASIL

IRACEMA, A VIRGEM DOS LÁBIOS DE MEL


ANÁLISES LITERÁRIA


A Revista ENTRE LIVROS, Ano 2 Nº 20, em sua edição especial de fim ano, publicada em dezembro de 2006, fez um excelente dossiê sobre 50 personagens da literatura brasileira, que segundo os analistas literários são "a cara do Brasil". Nesse roll estão personagens como Capitu, Macunaima, Iracema, e tantos outros. Segundo a redação da revista, a elaboração dessa lista seguiu os seguintes critérios: 
  1. A unanimidade da crítica;
  2. A representatividade para o período;
  3. A diversidade dos perfis;
  4. A popularidade do personagem.
A partir de hoje, faremos uma série de postagens, dentro da categoria LITERATURA, onde reproduziremos essas análises. A matéria foi de riqueza inestimável para qualquer estudante da Literatura Brasileira. Traz uma visão minuciosa de personagens que vão de A moreninha, de 1844 a José Costa, de 2004. 
Na postagem de hoje reproduziremos o dossiê sobre IRACEMA, personagem do indianismo romântico de José de Alencar.

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Românticos

Em José de Alencar, tem-se a mais concreta tradução do projeto estético e ideológico da vertente indianista do romantismo brasileiro

POR: NELSON SCHAPOCHINIK


[01] IRACEMA, VIRGEM COMO A AMÉRICA

Não parece equivocado afirmar que Iracema, de José de Alencar, é a mais concreta tradução do projeto estético e ideológico da vertente indianista do romantismo brasileiro. O amor entre Iracema e Martim serve de alegoria do processo de colonização do Brasil e da América pelos invasores europeus. Em tempo: o nome da personagem que dá título ao romance é um anagrama de América. Por sua vez, o nome português remete ao deus greco-romano Marte, cujo atributo são a guerra e a destruição.
Numa carta ao primo, o deputado Domingos José Nogueira Jaguaribe, acrescida como posfácio à 1ª edição, Alencar revela que o intento de se apropriar da tradição oral em uma obra literária surgiu quando da visita ao Ceará em 1860. Como argumento histórico, ele usou a colonização do Ceará no século XVII e os conflitos entre duas nações indígenas, os pitiguaras, habitantes do litoral e aliados dos colonizadores portugueses, e os tabajaras, habitantes do interior e aliados dos franceses. Servindo-se de cronistas e historiadores como Aires do Casal, Frei Manuel Calado, Berredo e Gabriel Soares de Sousa, Alencar selecionou alguns personagens que compõem a trama.
O Engenhoso trabalho, feito por Alencar, de buscar referências históricas não anulou a imaginação criativa. Particularmente, com relação à construção da protagonista do romance, ele informava: "Faltava-lhe o perfume que derrama sobre as paixões do homem a alma da mulher". Tal inventividade se evidencia no emprego de procedimentos estéticos e estilísticos elogiados pela crítica. Machado de Assis apostava que a obra resistiria ao tempo, classificando-a de "um poema em prosa". Haroldo de Campos, por sua vez, destacou a radicalidade poética de Iracema manifestada na revitalização diferenciadora do português no Brasil. 
A caracterização de Iracema revela o grau de idealização da heroína, bem como o emprego de uma linguagem plástica e sensorial. Desta maneira, ela é apresentada como: "a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. o favo da jati não era doce como o seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como o seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando,alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas". Em outro trecho, seguem as descrições: "O coração de Iracema está como o abati (arroz) n'água. (...) A filha dos sertões era feliz, como a andorinha, que abandona o ninho de seus pais".
Todas as imagens que Alencar emprega para traçar os atributos de Iracema são símiles da exuberante natureza local, propiciando a identificação da protagonista com o Brasil e a América. Poucas vezes o que vem dela não é delicadeza, doçura ou perfume. A própria Natureza reverenciava Iracema, desde a sombra generosa da oiticica e das flores de acácia silvestre ao canto do sabiá e as brincadeiras da ará. 
Essa harmoniosa relação será rompida quando do canto entre a índia tabajara e o colonizador. O estranhamento inicial de Iracema como o guerreiro Martim dá à sedução. O amor que nasce entre eles, no entanto, esbarra numa dupla interdição. Eles pertencem a nações inimigas, e a jovem desempenha um papel muito relevante entre os seus, pois é a virgem sagrada da sua tribo, "ela guarda o segredo da jurema e o mistério do sonho. Sua mão fabrica para o Pajé a bebida de Tupã". A violação desse tabu se dá quando Iracema cede o vinho encantatório ao jovem. Entorpecido pela bebida, Martim imagina possuir a jovem e quando desperta, "Iracema torna-se sua esposa". Se a cena nos parece hoje um "romance-rosa", convém lembrar que, à época, houve quem visse nela uma passagem altamente licenciosa. 
O seu amor, feito de renúncia e de sacrifícios, a coloca na condição de pária. Diante da violação do papel sagrado que ela desempenhava, reforçado ainda pela gravidez, Iracema se ver obrigada a abandonar a sua gente. Entretanto, como índia, ela não podia viver entre os brancos, como tabajara, não podia viver entre os inimigos pitiguaras. O exílio de Iracema pode ser lido como uma alegoria do processo de subordinação dos nativos aos interesses dos conquistadores europeus que, em outros contextos, foi emblematizado pelos imperativos da catequese, progresso e civilização. O fruto que ela carregava em seu ventre representava a emergência de uma nova formação, seria o mameluco original, representante de um povo, nem indígena, nem europeu, mas brasileiro.
Solitária e saudosa do marido ausente que pelejava e caçava com seus aliados, ela dá a luz a seu filho Moacir, "nascido do meu sofrimento, da minha dor". Depois de oito luas, o guerreiro cristão retornou, recebeu o filho das mãos de Iracema, assistiu a morte da esposa, e a enterrou ao pé do coqueiro. Este lugar, de acordo com o narrador, veio um dia a se chamar Ceará. E Alencar vaticinava: "O primeiro cearense, ainda no berço, imigrava da terra pátria. Havia ai a predestinação de uma raça?".
A atualidade de Iracema pode ser atestada pela sua permanência no cânone literário, mas também pode ser apreendida por meio de traduções ou adaptações para outras linguagens. Basta lembrar do vigor desse tema na pintura acadêmica, representadas pelas telas de José Maria de Medeiros (1881) ou de Antônio Pereiras (1909). A exaltação da personagem no samba de enredo do Império Serrano, "Aquarela Brasileira" (1964), ou ainda nas canções interpretadas por artistas de distintas tradições, como Cascatinha e Inhana ("Iracema") e Chico Buarque de Holanda ("Iracema voou"). E as versões cinematográficas, Iracema (1917), de Vittorio Capellario, Iracema (1949), dirigido por Vittorio Cardineli e Gino Talamo, Iracema, uma transa amazônica (1974), de Carlos Bodansky, proibido pela censura durante a Ditadura Militar, e Iracema, a virgem dos lábios de mel (1979), de Carlos Coimbra, com Helena Ramos no papel da virgem. 

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