sábado, 20 de julho de 2013

HISTÓRIAS DE TRANCOSO



O embalo da rede atada na varanda de minha casa, o céu azulado e a lua no seu papel de fêmea ciumenta fizeram-me vagar nas lembranças fortes, lá dos idos tempos da construção da barragem de Tucuruí. No início da década de 1980, minha família de retirantes nordestinos, instalou-se na iniciante cidade de Goianésia, Pará. Tinha eu cinco anos de idade, mas lembro-me bem daquela época. São lembranças misturadas no liquidificar do tempo com fantasias de crianças. Um dos raros momentos de lazer entre família, era sentar em frente ao barraco de barro batido, assar batata doce, que era farta às margens da rodovia, e contar e ouvir Histórias de Trancoso. 
Lembro-me de várias delas narradas nas vozes carregadas de sotaque nordestino, ora de meu pai que narrava encenando, ora de minha avô materna, ora de minha mãe. Vez ou outra, também na voz de algum tio. 
Uma delas, APONTE DAS SETE CRUZES marcou bem o imaginário não só meu, como também dos meus irmão e minhas irmãs. O narrador foi seu Antonio Queiroz, meu velho pai, que após vinte anos, voltou para o sertão do Pernambuco, e hoje está lá, com seus quase 80 anos casado pela terceira vez.



A PONTE DAS SETE CRUZES




Havia em um certo lugar afastado da cidade uma ponte que todos diziam assombrada por ter morrido nela, em um acidente de trânsito, sete pessoas. Muitos viajantes diziam já ter encontrado por lá visagens das pessoas que morreram. Severino era morador de uma vila próxima e costumava andar à noite a procura de festas pela redondeza da vila.

_ Home, num passe pela ponte depois da meia noite que é assombrada. Recomendavam-lhe os mais velhos.

_ Oxente! Que assombrado que nada, home – respondia sempre ele com ares de destemido.

Uma certa noite, porém, ao voltar já altas horas de um forró, Severino avistou de longe uma mulher de longo vestido branco encostada na mureta de proteção da ponte olhando o rio embaixo. Seus cabelos eram lisos e grandes, e o vento os faziam voar. – Oxente, mas olha só se num é uma mulé, se num me arranjei na festa isso vai ser é agora! – pensou ele e caminhou sedutor até onde estava a mulher.

_ Boa noite, minha senhora! Disse tirando o chapéu da cabeça e o encostando no peito.

A mulher respondeu com uma voz arrastada sem tirar os olhos da direção que estavam e lhe estendeu mecanicamente a mão. Ao segurar a mão que lhe era estendida, Severino sentiu um arrepio que subiu dos pés até o ultimo cabelo da cabeça.

_ Oxi!, mas que mão gelada você tem!? Disse ele com admiração.

A mulher lhe respondeu:

_ Não era assim no tempo em que eu era viva. E desapareceu como o vento.

Depois dessa, Severino nunca mais quis andar sozinho pela madrugada.






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